Bravos

Os olhos seguem o vulto no jardim

Escorre a luz do sol em seu cabelo

Cabeça baixa, tomo apontamentos

Resignada, a vida segue adiante.

 

Esse convite a ousar admitir

O que é realmente importante

Requer coragem para assentir

E nem todos são bravos o bastante.

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Rodas do Mundo

Os pés cansados, o suor, o andar em falso

acusam a dureza da jornada

que se arrasta em dias modorrentos sem relógio,

rasteja em meses e anos sem calendário

 

Os anos passam tão depressa

e as horas tão devagar.

Tanto corremos, tão cansados,

mas pra onde?

 

Somos peixinhos dando voltas num aquário.

Somos ratinhos de laboratório

resfolegando em suas rodinhas

tentando, desesperados,

chegar a algum lugar.

 

Em algum lugar, alguém repousará,

mas não nós que temos fogo sob os pés,

nós que vivemos pra correr

e corremos pra sobreviver.

Somos animais de circo enjaulados ,

sobreviventes da cadeia alimentar,

encenando as piores leis da natureza,

expostos para entreter a quem?

Corremos, corremos tanto,

movemos as rodas do mundo

que alguém estará pilotando

em direção a algum lugar.

Mas não nós que temos fogo sob os pés

e asas que nunca se abrem.

Frinés

O mundo não precisa mais de oradores

Com seus ideais de beleza e de virtude

E suas bocas cheias de discursos

Para defender anacrônicas Frinés

 

O mundo não precisa de adoradores

De gente que só existe em suas ideias

Enquanto as pessoas de carne e osso

Fenecem lentamente a seus pés.

Monsieur Periné

Tu canto es dulce miel en mi lengua

Me cuenta historias

De algún tiempo que viví

Y que hace mucho ya llevó el olvido

 

Tu sonido es perfume de océano

Recuerda las playas de arena blanca

Y el viento en mi pelo y el sol

En mi piel y el mar en mi oído

 

Tu voz llena mi alma de colores

Que no encuentro en las calles

Que no encuentro en el cielo

Que no tenía en mí

 

Tu voz llena un vacío en mi pecho

Pone sol y calor y color y dulzura

En ese profundo vacío oscuro

De echar de menos lo que no viví.

Semideus da Poesia

Tu és o que há de mais sublime

Não há coroa de ouro que encime

A tua cabeça e te ofusque

Não há mulher que não te busque

Em seus pensamentos mais ocultos

Não há gênios, não há vultos

Que façam sombra à tua grandiosidade

Pois mesmo os mestres parecem incultos

Frente a tua genialidade

Aos pés de teu altar estou, semideus da poesia

Deixa-me contemplar a tua fronte luzidia

Permite-me banhar-me em teu encanto

E cobre minha alma com teu manto

Tu és do vento o filho mais veloz

Obténs a inspiração de Deus em sua foz

Semideus da poesia, a virtude é tua consorte

Tu tens a beleza e a poesia por esporte

Tu possuis o mundo inteiro a teus pés

Que se curva em reverência à divindade que tu és

É a ti, semideus, que os mortais erguemos nossas preces

Em gratidão pelo sublime tesouro que tu nos ofereces

E enquanto houver outonos o povo há de ocupar teu templo

Para eternizar a inigualável lenda da tua vida e do teu exemplo.

Resta

No início de tudo

Em meio ao silêncio mudo

Alguém

Se manifesta

 

E do que era quase nada

De maneira inesperada

De repente faz-se

Festa

 

Alegria desmedida

Felicidade incontida

De uma ambição

Modesta

 

Mas a verdade

Indigesta

É deveras plausível

Demasiado insensível

Não comporta sonho

Impossível

 

À voz da razão surdo

Amigo do absurdo

O coração simplesmente

Contesta

 

Rebelde, irresignado

Mas também decepcionado

Ergue sua voz

E protesta

 

A alma então silencia

Quando se sentencia

A pena de um beijo

Na testa

 

Depois de tudo

Resta

A palavra inaudível

O sorriso invisível

A distância

Intransponível.

Caderno Provinciano

Leio-te

E sorvo tua sabedoria lírica

Com regozijo e desconfiança

Dobro páginas

Risco versos

E tudo parece tão certo

E surreal e arrebatador

Que no mundo real não existe

Tanta beleza junta assim

Eu folheio as grossas páginas

Temendo chegar ao fim

 

O problema com a beleza

É a ilusão da eternidade

Ilusão que nós mesmos criamos

Pela nossa necessidade

O deleite se traveste de começo

Mas começo não há porque o instante é tudo

O futuro é uma onda de mar

Que traga castelos de areia

Para trazer a próxima maré

À revelia da nossa vontade

E, uma vez devorado o momento,

O que digerimos é saudade.