Ela

Ela, com suas ideias erradas,

com cabelo e sapatos errados,

com todo um corpo muito errado,

com pernas e sorrisos equivocados,

abertos demais ou de menos.

 

Ela, posta sob holofotes,

não se sabe se de circo,

de prisão ou de altar.

Sumariamente julgada

por tudo que tem de aparente

 

Ela, que cura as próprias feridas,

estanca o sangue que não cessa,

ela que anda por aí sozinha,

com medo, sem medo, enfrenta.

Em frente

 

Ela é mulher, e de mulher o grito

sacode o pó da mansidão silente.

 

Ela é mulher, e o seu clamor aflito

ainda persegue alguma voz potente.

 

Ser mulher é o exercício infinito

de nunca ser suficiente.

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Incompreendido

O leitor absorto

num poema esquecido

de um poeta torto

e incompreendido

 

A estrofe vocifera

algum sentido

o leitor espera

desapercebido

 

A leitura se encerra

já não importa

o leitor enterra

a poesia morta.

Bravos

Os olhos seguem o vulto no jardim

Escorre a luz do sol em seu cabelo

Cabeça baixa, tomo apontamentos

Resignada, a vida segue adiante.

 

Esse convite a ousar admitir

O que é realmente importante

Requer coragem para assentir

E nem todos são bravos o bastante.

Rodas do Mundo

Os pés cansados, o suor, o andar em falso

acusam a dureza da jornada

que se arrasta em dias modorrentos sem relógio,

rasteja em meses e anos sem calendário

 

Os anos passam tão depressa

e as horas tão devagar.

Tanto corremos, tão cansados,

mas pra onde?

 

Somos peixinhos dando voltas num aquário.

Somos ratinhos de laboratório

resfolegando em suas rodinhas

tentando, desesperados,

chegar a algum lugar.

 

Em algum lugar, alguém repousará,

mas não nós que temos fogo sob os pés,

nós que vivemos pra correr

e corremos pra sobreviver.

Somos animais de circo enjaulados ,

sobreviventes da cadeia alimentar,

encenando as piores leis da natureza,

expostos para entreter a quem?

Corremos, corremos tanto,

movemos as rodas do mundo

que alguém estará pilotando

em direção a algum lugar.

Mas não nós que temos fogo sob os pés

e asas que nunca se abrem.

Frinés

O mundo não precisa mais de oradores

Com seus ideais de beleza e de virtude

E suas bocas cheias de discursos

Para defender anacrônicas Frinés

 

O mundo não precisa de adoradores

De gente que só existe em suas ideias

Enquanto as pessoas de carne e osso

Fenecem lentamente a seus pés.

Monsieur Periné

Tu canto es dulce miel en mi lengua

Me cuenta historias

De algún tiempo que viví

Y que hace mucho ya llevó el olvido

 

Tu sonido es perfume de océano

Recuerda las playas de arena blanca

Y el viento en mi pelo y el sol

En mi piel y el mar en mi oído

 

Tu voz llena mi alma de colores

Que no encuentro en las calles

Que no encuentro en el cielo

Que no tenía en mí

 

Tu voz llena un vacío en mi pecho

Pone sol y calor y color y dulzura

En ese profundo vacío oscuro

De echar de menos lo que no viví.