Entre pela Janela

Ah! Se você soubesse o que eu poetizo,

se eu pudesse compartilhar contigo

o assombro,

o júbilo

e essa sinergia impensável

das palavras que giram

em volta de mim.

 

Mas talvez elas não venham

para me ajudar a contar

o tanto que me enlouquecem

quando somem, fugidias,

para depois retornar

e pousar espontaneamente

em seu devido lugar.

 

Ah! Se você soubesse das noites,

se eu pudesse te mostrar o tanto

que transborda de dentro de mim,

e se você não tivesse medo

e deixasse jorrar de você

as histórias tristes e

os sonhos elegantes e anacrônicos

e as ideias tão delicadas

vestidas de português antigo,

ah! Eu convidava você

para poetizar junto comigo.

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Corpo

Veículo estranho

esse que pilotamos.

Adequado ou inábil

para nossos propósitos,

o invólucro nos define

mais do que precisamos.

 

Nosso rastro no mundo

vai deixando poesia

concreta.

 

Nossa materialidade

converte intenções diáfanas

em pedra.

 

A lâmpada contém o gênio

que nunca realizou desejos.

Os frascos ocultam fragrâncias

que prefeririam evaporar.

Todo o mundo é um cárcere

desprovido de grades

ou de fugas possíveis

para algum outro lugar.

 

Veículo bravo

que conduz pelo mundo

nosso ancestral peso.

 

Felicidade

é estar bem instalado

dentro de si mesmo.

Tempo

Não me impressiona sua alma de velho

Que idades são números

E números são tão mais jovens

Que o tempo

Não me causa espécie seu par de olheiras

Fiéis companheiras

De seu olhar profundo

E questionador e confuso e atento

Não me diz nada seu corpo cansado

Constantemente mergulhado

Na dureza do mundo

Nem a exaustão que habita nele

 

Não me dizem nada seus cabelos brancos

Contam o que o tempo fez com você

E não o que você fez com ele.

Utopia

Escuta o que eu digo

Entende minhas palavras

Ama-me como eu sou

 

Olha mais de perto

Aprende a abrir os braços

Nada está sob controle

 

Bendita a voz que grita

pedidos impossíveis

e erige pedra por pedra

seu castelo de utopias

 

Desejos perfuram concreto

afetos derrubam tijolos

mãos nuas põem muros abaixo

desde sempre.

Ela

Ela, com suas ideias erradas,

com cabelo e sapatos errados,

com todo um corpo muito errado,

com pernas e sorrisos equivocados,

abertos demais ou de menos.

 

Ela, posta sob holofotes,

não se sabe se de circo,

de prisão ou de altar.

Sumariamente julgada

por tudo que tem de aparente

 

Ela, que cura as próprias feridas,

estanca o sangue que não cessa,

ela que anda por aí sozinha,

com medo, sem medo, enfrenta.

Em frente

 

Ela é mulher, e de mulher o grito

sacode o pó da mansidão silente.

 

Ela é mulher, e o seu clamor aflito

ainda persegue alguma voz potente.

 

Ser mulher é o exercício infinito

de nunca ser suficiente.